Quando a vida finalmente faz sentido
Existe uma delicadeza imensa em descobrir quem somos quando finalmente encontramos as palavras certas para dar nome ao que sentíamos a vida toda.
Uma história que começou com incertezas
A minha história começou em setembro de 1991, quando nasci com microcefalia.
Naquela época, os prognósticos médicos eram cheios de incertezas e o esperado era que eu enfrentasse sequelas.
Contudo, contrariando as previsões, eu andei, falei e cresci como qualquer outra criança.
A sensação de funcionar em outra frequência
Apesar de o desenvolvimento físico ter seguido seu curso, por dentro a sensação sempre foi a de funcionar em outra frequência.
Na escola, eu era aquela menina extremamente tímida, que quase não interagia.
Com o tempo, essa dificuldade invisível de conexão com o mundo foi se transformando em uma tristeza silenciosa.
Quando o sofrimento emocional ganhou espaço
Na adolescência, vieram os primeiros episódios de depressão profunda e uma vontade constante de me isolar de tudo.
Cheguei a acreditar que jamais seria capaz de construir uma família.
O sofrimento emocional se intensificou tanto ao longo dos anos que resultou em diagnósticos complexos e em um tratamento pesado, no qual cheguei a tomar 15 medicamentos por dia no meu auge.
A força da rede de apoio
Mas foi justamente nessa travessia que a minha rede de apoio se fez presente e salvadora.
Entre o cuidado amoroso da minha família e a presença inabalável do meu esposo, meu porto seguro que esteve ao meu lado em cada passo dessa jornada e sustentou os dias mais difíceis, encontrei forças para resistir.
Quando uma peça finalmente se encaixou
Essa peça do quebra-cabeça finalmente encaixou aos 27 anos, quando comecei a ler e a pesquisar sobre o autismo e a forma como ele se manifesta tardiamente em nós, mulheres.
Entendi que, por toda a vida, usei uma máscara social exaustiva para tentar me encaixar, imitando comportamentos e escondendo quem eu era apenas para ser aceita.
Autismo e dupla excepcionalidade
Descobri também a dupla excepcionalidade: o autismo aliado às altas habilidades, fazendo com que minha mente compensasse muitas coisas, enquanto meu emocional pagava o preço de um esgotamento invisível.
Com os testes, veio o diagnóstico e um alívio.
Ao descobrir o autismo na vida adulta, entendi a raiz de tantas dores e percebi que nunca estive quebrada, apenas funcionava de um jeito diferente.
A arte como espaço de liberdade
Foi a partir desse acolhimento e dessa nova compreensão sobre mim mesma que me apeguei às artes.
Através da ilustração, gravuras e da escrita criativa, encontrei um canal genuíno e seguro para dar forma ao que as palavras faladas muitas vezes não conseguiam traduzir, transformando o ato de criar em uma extensão da minha liberdade.
Uma realidade transformada
Hoje, aos 34 anos, vivo uma realidade transformada.
Faço terapia ocupacional, compreendo meus limites, cultivo minhas paixões na arte e aprendi a me acolher.
Decidi que não vou mais me esconder atrás de máscaras para caber no mundo dos outros.
A minha verdadeira liberdade nasceu no dia em que tive coragem de abraçar quem sou.
Sobre Rute
Rute compartilha sua experiência de diagnóstico de autismo na vida adulta, dupla excepcionalidade e saúde mental, mostrando como o autoconhecimento e a arte passaram a ocupar um lugar importante em sua trajetória.
Hoje, utiliza a ilustração, as gravuras e a escrita criativa como formas de expressão e conexão consigo mesma.

