Minha filha encontrou quem ela é através da Arte – Histórias

    Minha filha encontrou quem ela é através da arte
    Histórias de leitores

    Minha filha encontrou quem ela é através da arte

    Rosângela da Silva
    Relato de família
    Rosângela da Silva
    Mãe da Jessica, 33 anos
    Uma história real sobre maternidade, autismo, fé, arte e a descoberta de identidade através do acolhimento.

    Eu nasci com uma força que não aprendi nos livros.

    Aprendi na vida, no vento frio e silencioso de Campos do Jordão, onde trabalhei antes de me casar e onde conheci o homem que caminharia comigo por todas as tempestades e bonanças.

    Juntos, formamos nossa pequena família: duas filhas que iluminam os meus dias. Hoje, já sou até avó de Valentina.

    Este é um relato pessoal de uma mãe sobre amor, diagnóstico, desafios e transformação através da arte.

    Quando o coração percebe antes das palavras

    A mais nova, Jessica, chegou ao mundo trazendo sinais que eu não sabia nomear — mas que o meu coração reconhecia.

    Desde o seu nascimento, algo dentro de mim sussurrava: “Minha filha é especial.”

    Eu via isso no seu olhar que fugia da pressa do mundo, na sua sensibilidade profunda, nos medos que a paralisavam, na forma única com que percebia tudo ao redor.

    Mas ninguém falava de autismo. Ninguém ao nosso redor conhecia essa palavra. Na verdade, ninguém em nossa família jamais tinha escutado sobre isso.

    E aquilo que o mundo não entende, o mundo julga. Jessica cresceu sendo vista como “estranha”, “inadequada”, “diferente”.

    Os desafios antes do diagnóstico

    Com o tempo, tudo ficou ainda mais difícil.

    Os problemas sensoriais, a rigidez, as fobias, a seletividade alimentar, o isolamento — tudo isso se tornou parte do nosso cotidiano.

    O bullying na escola feriu fundo. Ela se afastou dos estudos, perdeu amigos, perdeu o desejo de estar no mundo.

    Jessica convivia somente comigo, com o pai e com a irmã.

    Não tínhamos rede de apoio. Éramos nós três, firmes, silenciosos e cansados, tentando entender o que ninguém nos explicava.

    O pai de Jessica, com amor e coragem, sempre foi presente, colocou a mão na massa junto comigo. Ali, nós dois formamos uma dupla para cuidar das filhas e do lar.

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    O diagnóstico como resposta

    Somente aos 22 anos o diagnóstico chegou — como um sopro de verdade depois de anos de confusão.

    Na verdade, o diagnóstico do autismo para a nossa filha foi um alívio, pois pelo menos tivemos uma resposta do porquê Jessica apresentava alguns comportamentos diferentes.

    De repente, tudo fez sentido: os gestos, os medos, os silêncios, as dores, as diferenças, as dificuldades.

    O diagnóstico foi libertador e, ao mesmo tempo, ficamos um pouco perdidos, pois o tratamento não veio de forma eficiente.

    Onde moramos, naquela época, ainda faltava muita informação sobre como tratar o Transtorno do Espectro Autista.

    A fé em Deus foi a nossa única âncora. Sempre acreditamos que algo viria para ajudar nossa menina.

    A luz que chegou pela arte

    E veio. Veio no período mais improvável: no isolamento da pandemia de COVID-19.

    Foi pela internet que Jessica encontrou duas pessoas que mudaram sua vida — e a nossa: Grazi Gadia e Dr. Carlos Gadia.

    Daquele dia em diante, enxergamos, pela primeira vez, uma luz no fim do túnel.

    Grazi Gadia, artista plástica e ativista da causa azul, lá da Flórida, nos Estados Unidos, começou a dar aulas de arte para a minha filha de forma remota.

    Ela viu talento onde tantos só viram estranheza. Ela abriu portas, janelas, mundos.

    O Dr. Gadia ajustou o tratamento, indicou novas terapias com a psicóloga Marla Nascimento, trouxe clareza, acolhimento e um caminho seguro.

    Quando o lápis virou voz

    E foi a arte — sempre ela — que libertou minha filha das amarras invisíveis.

    O lápis virou voz. O traço virou coragem. A pintura virou identidade.

    Jessica encontrou lugar no mundo quando encontrou a arte.

    Foi premiada em diversos festivais de artes nacional e internacionalmente, o que lhe deu maior confiança e autoestima.

    Hoje, Jessica é artista plástica, monitora do Arts & Hearts, tem amigos, pertencimento e propósito.

    Hoje, ela recebe salário, ajuda na renda de nossa família, é monitora do Arts & Hearts, tem amigos, pertencimento e propósito.

    Ela se tornou ativista da causa azul, palestrante em escolas, congressos e eventos da nossa cidade e do nosso estado.

    A Friendly Class da Grazi Gadia deu a ela algo precioso: amor, amizade e a sensação de que pertence a um grupo social.

    Seus colegas são seus pares e ela se sente amada. E nós, os pais, ficamos mais tranquilos de vê-la feliz e entrosada no mundo.

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    Lágrimas de gratidão

    Minhas lágrimas hoje são de gratidão.

    Moramos em Jacaraú, na Paraíba, e a arte colocou um sol que antes não existia sobre nossa casa.

    Eu, olhando para tudo que vivemos, digo com toda a verdade do meu coração: “O autismo não tornou minha vida mais fácil. Mas me tornou mais forte.”

    E me ensinou a lutar com amor e persistência.

    Nunca tive rede de apoio. Nós enfrentamos tudo sozinhos, como uma pequena fortaleza familiar.

    Eu mesma nunca fui muito sociável, na verdade, também tenho fobia social, então absorvi — no peito — todos os desafios de Jessica.

    O futuro que antes dava medo

    O autismo continua presente, sempre estará me ensinando a ser uma pessoa melhor.

    Hoje, temos informação, acolhimento e pessoas em quem podemos confiar.

    O futuro que eu temia já acontece diante de mim e diante do dia a dia de Jessica.

    Minha filha vive esse futuro aos 33 anos, com trabalho, dignidade, alegria e identidade própria.

    A aceitação começa em nós

    O autismo não é uma estrada fácil. É cheia de curvas, pedras e noites longas.

    Mas é nas dificuldades que nos transformamos, tiramos nossas máscaras e nos tornamos mais humildes e empáticos com as diferenças.

    É ali que nasce a coragem e a aceitação de que o mundo é diverso. É ali que aprendemos a ser melhores.

    Uma das lições que aprendi nesta caminhada é que a aceitação do autismo inicia-se em nós, mães, e na nossa família.

    Só assim poderemos tirar nossas amarras e seguir em diante.

    “Na arte, tudo pode. Não existe certo ou errado.”

    Grazi sempre diz: “Na arte, tudo pode. Não existe certo ou errado.”

    E foi assim que tudo ficou mais leve nas nossas vidas.

    Através da combinação da arte com o autismo, minha filha encontrou algo que vai muito além do diagnóstico: ela encontrou quem ela é.

    Sou mãe da Jessy Blue

    Eu sou forte. Eu sou vulnerável. Sou lutadora. Fico cansada. Tenho fé. Às vezes fico triste. Tenho amor, às vezes fico braba. Mas, sobretudo, sempre tenho fé.

    Sou mãe. Sou mãe atípica. Sou mãe de uma artista autista.

    Sou a mãe da Jessy Blue com muito orgulho.

    E estarei aqui para o que der e vier.
    Este conteúdo faz parte da seção Histórias de Leitores e representa um relato pessoal de experiência familiar.

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