Na delicadeza entre sons e silêncio: o papel do fonoaudiólogo no florescer da linguagem pragmática em crianças com TEA
Este artigo descreve o papel do fonoaudiólogo na mediação e no desenvolvimento da linguagem pragmática em crianças com Transtorno do Espectro Autista, por meio de intervenções baseadas em evidências que favorecem a intenção comunicativa, o compartilhar com o outro e o uso funcional da linguagem.
Afinal, o que é linguagem pragmática?
David Crystal define a linguagem pragmática como o estudo da língua a partir do ponto de vista de seus usuários, considerando as escolhas realizadas, as limitações encontradas durante o uso da língua, a interação social e os efeitos que a comunicação provoca nos demais participantes.
Em termos mais simples para as famílias, a linguagem pragmática está relacionada à maneira como a criança utiliza a comunicação na prática.
Ela envolve habilidades como:
- Pedir algo de que necessita.
- Iniciar uma conversa.
- Manter e encerrar um diálogo.
- Interpretar gestos e expressões.
- Compreender intenções comunicativas.
- Entender regras sociais.
- Adaptar sua comunicação ao contexto e ao interlocutor.
Para a American Speech-Language-Hearing Association (ASHA), a linguagem pragmática corresponde ao uso funcional da comunicação em contextos sociais.
Ela inclui a capacidade de iniciar, manter e encerrar interações, adaptar a linguagem ao interlocutor e compreender as intenções comunicativas das outras pessoas.
Por que os pais precisam saber disso?
Porque a linguagem pragmática está diretamente relacionada à maneira como a criança se comunica no cotidiano.
Esse desenvolvimento começa muito cedo, ainda nos primeiros meses de vida, e acontece em casa, na creche, na escola e em todos os ambientes em que existem oportunidades de interação.
Quando os cuidadores compreendem que a comunicação vai muito além da produção de palavras, tornam-se capazes de reconhecer pequenas conquistas, identificar dificuldades reais e participar ativamente das estratégias sugeridas pelo fonoaudiólogo.
Qual é a relação entre o TEA e a linguagem pragmática?
Diversos estudos demonstram que crianças com Transtorno do Espectro Autista podem apresentar desafios relacionados à linguagem pragmática.
Paul e Norbury explicam que essas habilidades podem se desenvolver de maneira bastante diferente no autismo.
Bishop destaca que uma criança pode apresentar boa produção de fala e um vocabulário amplo, mas ainda assim ter dificuldades para usar a linguagem de maneira social e funcional.
Para as famílias, compreender essa relação é fundamental porque o apoio à comunicação cotidiana pode ajudar a criança a participar mais das interações, fortalecer vínculos e construir relações mais significativas.
A ideia de que uma criança precisa necessariamente desenvolver a fala antes de interagir é um mito que coloca um peso enorme e desnecessário sobre as famílias.
Falar é apenas uma das formas de comunicação.
Muitas crianças com TEA conseguem se conectar, aprender, brincar e interagir antes de desenvolver a fala ou enquanto ainda estão aprendendo a utilizá-la.
O que realmente importa é que a criança tenha acesso a meios funcionais de comunicação, que podem incluir:
- Gestos.
- Olhares.
- Apontar.
- Expressões faciais.
- Figuras e pranchas de comunicação.
- Dispositivos de Comunicação Alternativa e Aumentativa.
- Palavras e vocalizações.
Quando a criança fala, mas ainda não se comunica de maneira funcional
Algumas crianças pequenas demonstram conhecer letras, números, cores e até palavras em outros idiomas.
Essas habilidades podem estar relacionadas à memorização, uma capacidade que pode ser bastante desenvolvida em algumas crianças com TEA.
Entretanto, quando a criança fala muitas palavras, mas não utiliza a fala para responder ao próprio nome, chamar a atenção de um adulto, pedir ajuda ou iniciar uma interação, pode haver necessidade de apoio no desenvolvimento da intenção comunicativa, da atenção conjunta e do uso social da linguagem.
Nessas situações, o fonoaudiólogo atua para transformar conhecimentos memorizados em comunicação funcional, ampliando as possibilidades de interação da criança com outras pessoas.
Como o fonoaudiólogo participa desse desenvolvimento?
Desde muito cedo, por volta dos dois ou três meses de vida, o fonoaudiólogo pode observar sinais importantes da comunicação que ainda não envolvem palavras, mas que já demonstram como o bebê interage com o mundo.
Nessa fase, a avaliação pode considerar aspectos como:
- Troca de olhares.
- Sorriso social.
- Vocalizações.
- Resposta ao nome.
- Interesse pelo outro.
- Interesse por objetos.
- Curiosidade pelo ambiente.
A intervenção acontece de maneira lúdica e inclui orientação aos pais, estimulando habilidades que constituem as bases da comunicação.
Entre essas habilidades estão os turnos comunicativos, a imitação, a atenção compartilhada e as respostas sensíveis às iniciativas da criança.
O fonoaudiólogo atua junto aos pais?
Sim. O fonoaudiólogo trabalha lado a lado com os pais desde os primeiros meses de vida, ajudando-os a reconhecer e estimular cada etapa do desenvolvimento comunicativo do bebê.
Segundo a fonoaudióloga Laura Mize, o profissional orienta os cuidadores a construir interações ricas e intencionais.
Isso inclui responder aos olhares, sorrisos e vocalizações do bebê, transformando esses momentos em pequenas conversas.
Conforme a criança cresce, o fonoaudiólogo desenvolve estratégias para fortalecer:
- A atenção conjunta.
- O uso de gestos.
- A imitação.
- Os turnos comunicativos.
- A intenção de compartilhar.
- O uso funcional das primeiras palavras.
O cotidiano como espaço de comunicação
O objetivo é transformar o ambiente familiar em um espaço repleto de oportunidades comunicativas.
Essas oportunidades podem acontecer durante atividades simples e naturais, como:
- Trocar fraldas.
- Tomar banho.
- Realizar as refeições.
- Guardar brinquedos.
- Brincar.
- Passear.
- Participar das rotinas da família.
Pais, pediatras e fonoaudiólogos devem caminhar juntos, garantindo que a criança avance em seu próprio ritmo, mas com apoio consistente, sensível e baseado em suas necessidades.
Uma intervenção contínua, natural e significativa
Os pais devem ser reconhecidos como parceiros ativos durante todo o processo terapêutico.
Quando as estratégias são incorporadas às atividades reais da família, a intervenção deixa de estar limitada ao consultório e passa a ocorrer de maneira contínua e natural.
Assim, cada olhar, gesto, vocalização, palavra ou tentativa de aproximação pode se transformar em uma oportunidade verdadeira de conexão e desenvolvimento.
Sobre a autora
Georgiana Sylvia Dobbin é fonoaudióloga clínica, formada há mais de 30 anos no Rio de Janeiro, com atuação em clínica particular junto a crianças e adolescentes com dificuldades de comunicação e aprendizagem.
É especialista em avaliação e terapia do Processamento Auditivo e mestre em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com pesquisa na área de Processamento Auditivo e Síndrome de Down, concluída em 2005.
Atuou como professora dos cursos de graduação em Fonoaudiologia das universidades Veiga de Almeida e IBMR, ambas no Rio de Janeiro.
Também foi professora de cursos de pós-graduação em Audiologia Clínica na Universidade Estácio de Sá, na UFRJ e na Faculdade Redentor, em Itaperuna, Rio de Janeiro.
Atualmente, atua como Speech-Language Pathologist Assistant, licenciada no estado da Flórida, nos Estados Unidos, e é CEO da Axis Therapy Center, em Orlando.
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