Quando os sinais passam abaixo do radar
Em geral são consideradas, desde a infância, tímidas, meio esquisitas, inadequadas, solitárias, super sensíveis ao comportamento dos outros consigo, mas, ao mesmo tempo, podem ser rudes com os outros sem querer.
Meninas autistas adolescentes podem passar abaixo do radar até que as demandas sociais da adolescência ultrapassem suas capacidades adaptativas.
Se, por um lado, o diagnóstico tardio demonstra maior capacidade de adaptação e de camuflagem, por outro, menos oportunidades houve de aprendizagem direcionada e orientação durante a infância.
Soma-se a isso o turbilhão socioemocional da adolescência, e temos a tempestade perfeita.
Comunicação, interação social e interesses restritos
Os prejuízos na comunicação e na interação social, com dificuldades para manter amizades, são, em geral, bem mais chamativos do que os interesses restritos e os comportamentos repetitivos, que podem ser sutis.
Podem apresentar algumas estereotipias menos chamativas, como enrolar o cabelo, cutucar as unhas ou a pele, o que pode ser confundido apenas com ansiedade.
Seus interesses restritos são, muitas vezes, mais comuns e socialmente aceitos, como animais, , artistas etc., passando despercebidos.
A rigidez pode até parecer mais sutil, mas causa maiores dificuldades para se adaptar às constantes mudanças próprias do comportamento dos adolescentes.
Camuflagem e exaustão emocional
Meninas têm maior capacidade de camuflagem, aprendendo, por observação e de forma consciente, o que seria natural para os outros, e utilizam essas habilidades de autoaprendizagem no dia a dia.
Porém, além de poder não ser suficiente, a exaustão emocional de estar sempre se automonitorando cobra um preço muito alto.
Por isso, a “ressaca social” e as crises de descontrole emocional.
Sofrimento psíquico e comorbidades
Quanto mais inteligentes, maior a percepção de serem diferentes e, consequentemente, maior o sofrimento.
É aí que entram as comorbidades, sendo a ansiedade e a depressão muito frequentes.
Sinais de sofrimento psíquico, como autoagressão (cutting) e tentativas de suicídio, são mais comuns do que entre adolescentes em geral.
Relacionamentos e vulnerabilidade social
O intenso desejo de aceitação, inerente à adolescência, somado à pouca capacidade de percepção da intenção do outro, pode trazer riscos de relacionamentos abusivos, inclusive abuso sexual, além de torná-las alvos fáceis de manipulação.
Na procura por essa aceitação que não encontram no ambiente escolar, podem tornar-se presas fáceis no ambiente da internet e precisam ser ativamente monitoradas e orientadas quanto a esses riscos.
Nem tudo é negativo
Porém, nem tudo é negativo — pelo contrário.
O fato de terem chegado até essa idade sem diagnóstico demonstra um alto potencial cognitivo e de adaptação.
Com tratamento adequado, baseado em treinamento de habilidades sociais, Terapia Cognitivo-Comportamental, tratamento das comorbidades quando presentes e forte apoio familiar, o prognóstico pode ser muito bom.
A psicoeducação dos pais é fundamental.
O diagnóstico também pode ser libertador
A chegada do diagnóstico de autismo nessa fase pode ser difícil no início, mas é muito libertador, pois representa, finalmente, uma explicação para o sentimento de estranheza da própria adolescente e um alívio ao compreender-se melhor e abandonar a “culpa” pelos seus problemas.

