Músico o quê? Musicoterapia!
Você já parou para pensar no quanto a música está presente na sua vida e no que ela realmente faz com você?
Muitas pessoas têm dúvidas sobre a musicoterapia: o que é, quando surgiu, quem pode atuar na área, para quem é indicada, se é preciso saber tocar um instrumento, o que acontece no cérebro ao ouvir música, quais são seus benefícios e até seus possíveis malefícios.
Este texto busca responder essas questões e ampliar o entendimento sobre esse campo.
O que é musicoterapia
De acordo com a União Brasileira das Associações de Musicoterapeutas (UBAM, 2018), a musicoterapia é um campo de conhecimento que estuda os efeitos da música e da utilização de experiências musicais a partir do encontro entre o musicoterapeuta e as pessoas atendidas.
Sua prática tem como objetivo favorecer as possibilidades de existir e agir, tanto no trabalho individual quanto em grupos, comunidades e instituições, atuando na promoção, prevenção e reabilitação da saúde, além da transformação de contextos sociais.
Como surgiu a musicoterapia
A musicoterapia se consolidou após a Segunda Guerra Mundial, quando músicos passaram a tocar em hospitais para soldados feridos física e emocionalmente.
Diante da escassez de recursos médicos, a música foi utilizada como forma de aliviar dor, ansiedade e sofrimento psíquico.
Os resultados observados incluíam redução da dor, melhora do humor, relaxamento e estímulo à recuperação.
Esses efeitos despertaram o interesse de médicos e pesquisadores, que passaram a estudar a música de forma sistemática no contexto terapêutico, dando origem à musicoterapia como prática clínica baseada em evidências.
A musicoterapia no Brasil
No Brasil, a área foi institucionalizada na década de 1970, com a criação de cursos de formação, como na Faculdade de Artes do Paraná e no Conservatório Brasileiro de Música.
Esses marcos foram fundamentais para a consolidação da profissão no país.
Na arte, permite expressão emocional e criatividade; na ciência, baseia-se em evidências sobre os efeitos da música; e na dimensão humana, destaca-se pela relação entre musicoterapeuta, paciente e música.
Quem pode atuar como musicoterapeuta
O musicoterapeuta é um profissional com formação reconhecida pelo MEC e registro em órgão de representação da categoria.
Ele realiza avaliações específicas, elabora planos terapêuticos e conduz o processo musicoterapêutico de forma individualizada.
Esse profissional pode atuar em diversas áreas, como saúde, educação, contexto social e organizacional.
Como funciona a prática
O processo inicia com uma avaliação musicoterapêutica, que orienta a construção de um plano terapêutico individual.
São utilizados instrumentos clínicos e a investigação da identidade sonoro-musical do paciente.
O paciente é conduzido a vivenciar experiências musicais de forma acessível, respeitando suas necessidades e possibilidades.
Áreas de atuação
- Infância e adolescência: desenvolvimento, aprendizagem e interação social
- Saúde mental: ansiedade, depressão e transtornos emocionais
- Gerontologia: envelhecimento e estimulação cognitiva
- Neuroreabilitação: funções motoras e cognitivas
- Contexto hospitalar: manejo da dor e suporte emocional
- Contexto organizacional: qualidade de vida no trabalho
Música e memória
A música está presente em toda a vida humana.
Desde o período intrauterino até o fim da vida, ela acompanha o desenvolvimento e as experiências individuais.
Um aspecto importante é que a música pode ser uma das últimas memórias a ser preservada em casos como o Alzheimer, possibilitando o acesso a lembranças por meio de recursos musicoterapêuticos.
Como a música funciona no cérebro
A música ativa múltiplas áreas do cérebro, como o córtex cerebral, a amígdala, o cerebelo e o hipocampo, responsáveis por funções cognitivas, emocionais, motoras e de memória.
Embora existam diferenças entre os hemisférios cerebrais, seu funcionamento é integrado.
A prática musical favorece essa integração, promovendo coordenação entre diferentes funções.
Além disso, a música estimula a neuroplasticidade, contribuindo para o desenvolvimento cognitivo, emocional e motor ao longo da vida.
Benefícios da música
- Cognitivos: melhora da atenção, memória e aprendizagem
- Emocional: regulação emocional, redução de ansiedade e estresse
- Físicos: melhora da coordenação e apoio na reabilitação
- Neurológicos: ativação cerebral e estímulo à neuroplasticidade
- Sociais: fortalecimento de vínculos e interação
- Comportamentais: aumento da autorregulação e organização
- Clínicos: auxílio no tratamento de diferentes condições
Possíveis malefícios
Apesar dos benefícios, a música também pode ter efeitos negativos quando utilizada sem direcionamento adequado:
- Sobrecarga sensorial
- Dependência emocional
- Intensificação de estados negativos
- Rigidez comportamental
- Riscos auditivos
- Estímulos inadequados
- Influência de conteúdos
Como usar a música no dia a dia
Crie uma trilha sonora para sua rotina. A música pode modular seu humor e ajudar na regulação emocional ao longo do dia.
Quando precisar se acolher, recorra a canções que marcaram sua infância ou adolescência. Elas ativam memórias afetivas e proporcionam conforto emocional.
Sair do habitual estimula o cérebro, amplia repertório emocional e favorece novas conexões neurais.
Escolha uma música e concentre-se na letra. Perceba o que ela desperta em você — pensamentos, emoções, lembranças.
Acompanhe mentalmente um instrumento. Esse exercício favorece foco, atenção e organização interna.
Use objetos do dia a dia para marcar o ritmo. Essa prática estimula coordenação motora, ritmo e expressão corporal.
Cantar libera emoções, reduz tensões e ativa áreas cerebrais relacionadas ao prazer — não é sobre técnica, é sobre expressão.
Coloque fones de ouvido, feche os olhos e escute sua música favorita até o final. Observe sua respiração, sensações corporais e emoções.
Experimente ouvir o silêncio! Feche os olhos e permita-se desacelerar.
Em um ambiente calmo e tranquilo, acomode o corpo de forma confortável, soltando as tensões pouco a pouco.
Perceba a ausência de sons externos…e, então, comece a notar os sons internos: sua respiração, os batimentos do seu coração, os pequenos ruídos do corpo e do ambiente.
É nele que o sistema nervoso encontra pausa, que a mente desacelera, e que o corpo se reorganiza.
O silêncio também é parte importante desse processo, sendo um espaço de escuta interna e reorganização.
Para finalizar
Referências
Gattino (2015); Levitin (2006); Koelsch (2014); Zatorre et al. (2007); Juslin & Västfjäll (2008); Garrido & Schubert (2015); Geretsegger et al. (2014); Patel (2008); World Health Organization (2015).

