A decisão de aceitar
Um relato sobre maternidade atípica, aceitação, pertencimento e a escolha consciente de reconhecer o desenvolvimento e as potencialidades de um filho autista.
Desde o momento em que a família recebe o diagnóstico de autismo — ou de outra condição — de um filho até a aceitação, que nem sempre é alcançada, existe um longo caminho.
Claro que há fatores que afetam esse processo e que vão além das inclinações individuais.
Afinal, não podemos pensar a realidade familiar desconsiderando recortes econômicos, raciais, de gênero, sociais, entre tantos outros.
Entre circunstâncias, tendências e escolhas
Entretanto, se a maneira de lidar com a deficiência dos filhos é afetada por fatores externos, acredito que ela também é determinada por nossas tendências naturais e por nossas escolhas.
Segundo Andrew Solomon, situações extremas tendem a potencializar tendências que já existiam.
Por esse prisma, penso que a aceitação não é simplesmente um caminho natural ou um próximo passo óbvio.
A partir do momento em que essa decisão é tomada, o caminho começa a ser construído com intencionalidade.
Então, como diria Oliver Sacks, precisamos encontrar “um novo equilíbrio, uma nova ordem e uma nova integridade” que façam sentido diante da nova realidade.
Uma realidade que está posta e com a qual é inútil brigar.
Reconstruir e ressignificar
A partir daí, pode se tornar possível a reconstrução e a ressignificação diante dos desafios, assim como o reconhecimento das habilidades.
Em nosso caso, o primeiro passo para enxergar de fato as potencialidades do Bê foi parar de medir o desenvolvimento do nosso filho a partir da comparação com seus pares.
Passamos a compará-lo com ele mesmo.
Comparar o Bê com ele mesmo
Em se tratando de um adolescente autista com nível 2 de suporte, compará-lo com jovens neurotípicos da mesma faixa etária seria injusto.
Essa comparação poderia produzir a impressão equivocada de ausência de desenvolvimento.
Com o passar do tempo, as diferenças podem se tornar mais acentuadas e mais visíveis, pois a aquisição de habilidades pode acontecer em tempos muito diferentes.
Isso, porém, não significa ausência de evolução.
Encontrar lugares de pertencimento
Outro ponto que trouxe um grande aumento na qualidade de vida do nosso filho foi encontrar lugares de pertencimento.
Isso aconteceu quando passamos a olhar além da fórmula pronta daquilo que seria indicado para alguém com determinado diagnóstico.
Começamos a observar o que fazia sentido para ele como indivíduo singular.
No caso do Bernardo, encontramos dois caminhos muito importantes: o balé e o desenho.
O balé como experiência, prazer e desenvolvimento
Bê participa do balé não com foco em performance, mas pelo prazer da atividade e pela interação com a turma.
Atualmente, realiza 12 horas semanais em uma grande escola gratuita de artes em Belo Horizonte.
Mesmo que seu objetivo principal seja viver a experiência, a atividade favorece o desenvolvimento de várias habilidades, como:
- Disciplina.
- Flexibilização.
- Cooperação.
- Consciência corporal.
- Coordenação motora.
- Condicionamento físico.
- Participação em grupo.
Obviamente, o balé não substitui a intervenção comportamental, que nunca foi abandonada.
O que percebo é que uma intervenção potencializa a outra.
A arte e o encontro com outros autistas
Outro ponto importante foi a oportunidade de estar com outros autistas que também demonstram interesse pelas artes.
Esse contato é mantido regularmente durante as aulas com Grazi Gadia.
É um ambiente seguro, no qual todos se sentem à vontade para exercitar a criatividade, apoiar uns aos outros, desenvolver habilidades e se compreender.
Além das amizades que surgem entre os filhos, os vínculos também acabam se estendendo às mães.
Quando temos a oportunidade de nos encontrar pessoalmente, é emocionante observar o vínculo entre os estudantes e também a relação deles com a professora Grazi.
Referências que se parecem com ele
Penso que a maior aposta que posso fazer pela autoestima do meu filho é oferecer a ele a oportunidade de encontrar pessoas parecidas consigo como referências.
Isso também significa me despir da vaidade de acreditar que os maiores modelos de sua vida precisam ser, necessariamente, os pais.
As celebrações também são legítimas
Não é incomum que eu escute que estou romantizando a maternidade atípica quando não estou me queixando de suas demandas.
É como se apenas as queixas fossem legítimas, mas as celebrações não.
Como se, quando uma pessoa não estivesse se queixando, ela estivesse necessariamente em negação ou escondendo sentimentos que seriam considerados mais verdadeiros.
Mas as famílias precisam ser escutadas em ambos os momentos.
Precisam encontrar espaço para falar sobre o cansaço, o medo e as dificuldades, mas também sobre as conquistas, os vínculos, as alegrias e o orgulho.
Fazer as pazes com a realidade
Para mim, fazer as pazes com a realidade não é romantizar.
É reconhecer aquilo que existe e construir, a partir daí, uma vida possível, significativa e coerente com quem somos.
Sobre a autora
Érika Fernandes Andrade é graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Newton Paiva, com formação concluída em 2004.
Possui especialização em Transtornos do Espectro Autista pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), concluída em 2020.
Atua como analista de políticas públicas na Prefeitura Municipal de Belo Horizonte.

