Arteterapia como um complemento do tratamento do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA)

    A arte e o adolescente com TEA
    Arte, inclusão e autismo

    A arte e o adolescente com TEA

    Arteterapia e artes plásticas como complemento do tratamento dos indivíduos com autismo, em especial na fase da adolescência.

    Nome da autora
    Artigo escrito por especialista
    Grazi Gadia
    Artista plástica • Arteterapeuta • Profissional com atuação em TEA
    Grazi Gadia, natural de Porto Alegre, Brasil, é uma renomada artista visual e defensora da causa do autismo. Com formação em Publicidade e Marketing, dedicou os últimos dezessete anos de sua vida ao Sul da Flórida, onde encontrou sua paixão por promover a conscientização e a inclusão do autismo.
    “Na arte não existe certo ou errado, tudo pode.”Vera Wildner- minha professora de artes.

    “…embora faltem números exatos, na Holanda, crianças com TEA são frequentemente encaminhadas para arterapia (Teuw, 2011). Existem algumas evidências de que a arteterapia se aplica a crianças diagnosticadas com TEA. Na educação especial, contribui para uma mudança positiva no comportamento social e seu foco de atenção.” (Ploch,2010) Vários estudos mostram que a arteterapia tem sido utilizada, gradativamente e com sucesso em pacientes com transtornos neuropsiquiátricos, reduzindo a severidade de sintomas. Incluem-se nestes casos: depressão e ansiedade; comprometimento cognitivo e demências (como a doença de Alzheimer), a esquizofrenia e o autismo. (Jingxuan Hu1, Jinhuam Zhang, Liyu Hu2, Halbo Yu2 and Jinping xu3*) A American Art Therapy Association descreve as seguintes funções da arteterapia:

    • Melhorar funções cognitivas e sensório-motoras;
    • promover autoestima e autoconsciência;
    • cultivar a resiliência emocional;
    • promover o insight;
    • aprimorar habilidades sociais;
    • reduzir e resolver conflitos e sofrimento;
    • promover mudanças sociais.

    A ARTE E O ADOLESCENTE COM TEA

    Quando o indivíduo com TEA atinge a adolescência, é frequente que as mães reclamem de que as terapias não estão funcionando. Sabemos que, nesta fase, deve-se aplicar um “approach” terapêutico diferenciado para os adolescentes. A adolescência é uma fase de grandes desafios para os autistas, pois é quando vem mais forte a necessidade de pertencimento, mas, paradoxalmente, é nesta fase que surgem as experiências sociais mais difíceis.

    O “bullying” e o sentimento de solidão podem impactar as conquistas passadas e a saúde mental do indivíduo. Nesta fase, não é raro que o autista reconheça algo diferente ao comparar-se com os seus pares. A rigidez no hiperfoco, a dificuldade em interagir socialmente, déficits na pragmática de linguagem, comportamento estereotipado e a timidez são características que podem causar/aumentar o isolamento e a depressão neste indivíduo.

    Cuidado é necessário para que essa pessoa, que agora se reconhece como autista, não perca sua autoestima e se mantenha motivada nos seus objetivos. Infelizmente, a maioria das escolas não trabalham as capacidades que estão latentes nos indivíduos com TEA como, por exemplo: habilidades para o desenho, para a pintura, para o canto, para a dança e o teatro podem ficar limitadas a brincadeiras e não serem devidamente valorizadas.

    EXPECTATIVAS DOS PAIS DEVEM SER CONFRONTADAS

    Esta falta de atenção para com estas habilidades latentes acabam por influenciar os pais que, muitas vezes, focam nas prioridades para os seus filhos autistas de acordo com o que a sociedade e a escola espera de uma pessoa neuro-típica. Suas expectativas com seus filhos atípicos são originadas nas mesmas que os pais de filhos típicos.

    COMO ENFRENTAR ESTA TEMPESTADE PERFEITA?

    – Em primeiro lugar, a família deve adaptar as suas expectativas com relação ao presente e futuro da crianca. – Devem passar a comparar seu filho(a) com ele(a) mesmo(a), assim obterão mais resultados do que frustrações: – Deve-se identificar o que aquela pessoa realmente gosta de fazer; – Observar que tipo de atividade a motiva a manter-se engajada (descarta-se aqui os eletrônicos, claro) – Observar se ele ou ela apresentam alguma habilidade saliente dentro das artes, esportes ou outras áreas.

    ARTES PLÁSTICAS ou ARTETERAPIA COMO UM MEIO PARA DESENVOLVER HABILIDADES NO TEA

    A ARTETERAPIA está enraizada tanto na ciência quanto na arte. O objetivo da terapia é usar a arte para ajudar indivíduos a alcançar transformação e mudança. É necessário conhecer o indivíduo e suas demandas, através de uma anamnese, geralmente realizada com a mãe, para identificar os seguintes ítens: – os interesses deste aluno; – o seu nível de funcionalidade e de suporte (verbal / não verbal): – diagnóstico e comorbidades; – uso de medicações; – programa de terapias; – identificar habilidades do indivíduo; – experiências anteriores com aulas de arte ou arteterapia; – caracterizar hiperfoco, se presente; – qual a intenção com aulas de artes ou arteterapia; – conhecer objetivos do plano de tratamento.

    Estes dados são fundamentais para que a terapeuta e ou a professora de artes planeje as aulas que melhor irão se ajustar ao indivíduo com TEA. Não existe uma sessão de arteterapia padrão, mas a técnica é única e baseada na ciência ABA.

    PLANO TEARPÊUTICO

    As sessões de aulas de artes devem estar alinhadas com o plano terapêutico do paciente. É muito importante que o terapeuta conheça os objetivos a curto e a longo prazo deste plano. A arteterapia poderá ajudar a neutralizar as dificuldades mais frequentes nos indivíduos com TEA, como o isolamento, a falta de amigos, a baixa autoestima e a insegurança, de uma forma mais natural.

    Embora, a arteterapia/aulas de arte devam fazer parte de um processo terapeuticamente estruturado, ela deve ser um espaço mais lúdico, livre e leve para o indivíduo. Um momento de respiro para o aluno atítipico.

    O PLANO:

    O plano de aula considera o objetivo principal colhido na anamnese. Na medida em que vai se conhecendo o aluno, este plano pode e deve sofrer alterações de rota. Importante, salientar que o tempo de sessão/aula, em geral deve ser de 1 hora, mas, as vezes, a sessão pode ter seu tempo reduzido ou ampliado.

    Geralmente, se fornece uma previsibilidade da sessão, enviando ao aluno a tarefa a ser realizada com antencedência. A tarefa é descrita por passos, como uma “task analysis”. Abaixo um print de uma das sessões.

    Print de uma das sessões.
    Print de uma das sessões.

    MOTIVAÇÃO e HIPERFOCO

    O sucesso de um plano terapêutico, por meio da arte, depende do quanto o indivíduo está motivado e engajado. O início do relacionamento da terapeuta ou professora de arte com o aluno com TEA pode ser através dos interesses que este aluno apresenta. A motivação, geralmente, advém do hiperfoco que indivíduo apresenta.

    Portanto, deveremos utilizar nas sessões de arteterapia os interesses do aluno tanto no tipo de artes plásticas quanto nos temas que ele prefere como uma estratégia de engajamento. Podemos usar o hiperfoco não só no tema da tarefa artística, mas em um bate-papo durante a sessão. Geralmente, se usa o hiperfoco como uma estratégia para ampliar os interesses do indivíduo.

    Exemplo 2: A aluna só gostava de desenhar arco-íris e árvores .Iniciei as primeiras aulas pintando, junto com ela, apenas estes elementos.Importante entender que a motivação pode ser uma conversa sobre os seus interesses: esta aluna, tem o hiperfoco na Sissi, a Imperatriz, assunto que balizou, inicialmente, nossas conversas. Com o tempo, foi sentindo-se segura para arriscar-se em outros temas. Hoje, ela desenha e pinta qualquer tema.

    Figura 1 – Primeira pintura da aluna com o hiperfoco em arco-íris Figura 2- Pintura que venceu o Festival de Artes do Eyecontact em Miami 2022

    Figura 1 – Primeira pintura da aluna com o hiperfoco em arco-íris. Figura 2- Pintura que venceu o Festival de Artes do Eyecontact em Miami 2022.
    Figura 1 – Primeira pintura da aluna com o hiperfoco em arco-íris. Figura 2- Pintura que venceu o Festival de Artes do Eyecontact em Miami 2022.

    SEGURANÇA E AUTOESTIMA

    Considerando a premissa de que na arte tudo pode e não existe certo ou errado, já se tem uma janela de oportunidade para ampliar a felixibilidade e a auto-estima do indivíduo. Nas artes em geral, o mais importante é desenvolver um estilo único e próprio. Sendo assim, os padrões existentes servem como inspiração e não como padrão.

    Os clientes encaminhados para arteterapia não precisam ter experiência ou habilidades em artes. O objetivo geral da arteterapia é permitir que eles cresçam e se desenvolvam em um nível pessoal através do uso de materiais artísticos em um ambiente seguro e conveniente (American Art Therapists Association, 2015). O terapeuta de arte deve ter a consciência que nem todo o aluno terá a capacidade de ser um grande pintor: ele está ali para desenvolver o seu gosto pela arte e outras habilidades que sejam estabelecidas pelo plano terapêutico, de tal maneira que estas conquistas promovam maior adaptação dele com o mundo, encontrando um “lugar de pertencimento”.

    Exemplo de um desafio e objetivo: A Mãe de PM relatou que era muito difícil participar das aulas de desenho na sua escola; ele achava que desenhava mal, tinha medo de chacota dos colegas, tinha vergonha dos seus desenhos e artes. Era muito perfeccionista. Por outro lado, ele adorava tênis, futebol e viajar.

    Figura 3: Primeira aula do menino, trabalhamos sua visita ao museu do Salvador Dali e brincamos com o enorme bigode do artista. Ele desenhou, recortou e engajou-se na aula. Sua autoestima foi tão bem trabalhada que ele ganhou prêmio no festival de artes da escola.

    Figura 3: Primeira aula do menino, trabalhamos sua visita ao museu do Salvador Dali e brincamos com o enorme bigode do artista.
    Figura 3: Primeira aula do menino, trabalhamos sua visita ao museu do Salvador Dali e brincamos com o enorme bigode do artista.

    REFORÇADORES POSITIVOS

    Reforçadores positivos são fundamentais e devem ser utilizados como motivação. O terapeuta deve ter a sensibilidade de customizar os reforçadores de acordo com o gosto do seu aluno. O simples elogio, ganhar estrelinhas, poder contar piadas ao final da aula são alguns exemplos que já utilizei e utilizo.

    As sessões de arteterapia devem ser um momento de prazer muito mais do que de estresse. O objetivo a se cumprir em cada sessão é a tarefa em si, do jeito que ele tem condições de fazer e não a qualidade da tarefa, com base em um padrão cultural e social vigente. Na arteterapia, o sentimento de liberdade é que faz com que o indivíduo se permita experimentar, arriscar e criar, permitindo a ele atravessar o seu processo de crescimento de forma mais natural e alegre.

    As críticas devem ser feitas com cuidado, para que o aluno nunca sinta-se desmotivado. Eventualmente, as críticas podem acontecer, com o intuito de que o indivíduo evolua nas suas tarefas e no seu comportamento. A arte, por si só, é democrática, exige liberdade e criatividade.

    Estas características quase exclusivas da arte, deveriam tornar a ARTE uma opção quase essencial dentro do leque de intervenções terapêuticas para indivíduos com TEA. Figura 4: Reforçador positivo com a coroa da Sissi.

    Figura 4: Reforçador positivo com a coroa da Sissi.
    Figura 4: Reforçador positivo com a coroa da Sissi.

    ANSIEDADE E DEPRESSÃO

    Evans e Dubowski (2001) acreditavam que a criação de imagens no papel poderia ajudar as crianças a expressar suas imagens internas, aumentando assim sua imaginação e pensamento abstrato. A pintura também pode ajudar crianças autistas a expressar e desabafar emoções negativas e, assim, trazer experiências positivas e promover sua autoconsciência (Martin, 2009). Com o tempo, as aulas de arte tornam-se momentos de conversa e de desabafo, nas quais se pode auxiliar o aluno a superar situações complicadas e difíceis que ele esteja passando em ambiente escolar e/ou doméstico.

    Estas dificuldades podem ser trabalhadas através de seus traços, pinceladas, temas e cores que ele sugerir. Respeitar o sentimento e as demandas do aluno é uma condição básica de um plano terapêutico através da arte. A arte, o desenho, a pintura serão sempre uma forma de expressão dos sentimentos conscientes e/ou inconscientes do aluno com TEA.

    COMUNICAÇÃO E INTERAÇÃO SOCIAL

    A arteterapia é uma forma de expressão que abre as portas para a comunicação sem interações verbais. Recentemente, um estudo com 40 crianças com TEA participando de terapia de pintura mostrou uma melhora significativa nas interações sociais, comportamentos adaptativos e emoções (Jalanbadani, 2020). O uso de ícones, símbolos e de histórias sociais ajudam as crianças a se lembrarem do que lhes foi ensinado.

    Quando crianças e terapeutas colaboram para personalizar esses símbolos, ícones e histórias para os desafios e objetivos únicos de cada criança, as crianças se apropriam deles em sua experiência interna.” (Gray, 1994) Figura: Uso de imagens para melhorar a comunicação via remota.

    Figura: Uso de imagens para melhorar a comunicação via remota.
    Figura: Uso de imagens para melhorar a comunicação via remota.

    CONTATO VISUAL

    De forma lúdica e através de tarefas artísticas, pode se estimular o contato visual do paciente. Abaixo, exemplo de uma sessão na qual trabalhamos com o miolo de papelão do papel higiênico e tinta. Figura: estímulo do contato visual através dos materiais de arte.

    Figura 2: Resultado são os fogos de artifício feitos com o miolo de papelão do papel higiênico com tinta sobre tela.

    Figura: estímulo do contato visual através dos materiais de arte.
    Figura: estímulo do contato visual através dos materiais de arte.
    Figura 2: Resultado são os fogos de artifício feitos com o miolo de papelão do papel higiênico com tinta sobre tela.
    Figura 2: Resultado são os fogos de artifício feitos com o miolo de papelão do papel higiênico com tinta sobre tela.

    ABSTRAÇÃO

    A Arteterapia oferece uma maneira de resolver problemas de forma visual. Ela ajuda crianças com TEA a serem menos literais e concretas na autoexpressão e oferece uma maneira não ameaçadora de lidar com a rejeição. Pode substituir a ocorrência de comportamentos disruptivos porque oferece um meio mais aceitável para o indivíduo descarregar a agressividade e permite que a criança se acalme.” (Henley, 2000).

    ARTE TERAPIA COM MÚSICA

    A música é outro recurso que pode ser utilizado nas atividades da vida diária do indivíduo com TEA, com o objetivo de melhorar a sua comunicação e entendimento do mundo.

    CRIATIVIDADE E IMAGINAÇÃO

    De acordo com Cooper e Widdows (2004), a arteterapia é particularmente apropriada para crianças com TEA porque, muitas vezes, estes indivíduos são pensadores visuais e concretos. A arte, de forma natural, estimula a criatividade e a abstração. Uma das estratégias para que se atinja este objetivo é usar a modelagem.

    O terapeuta deve estar preparado para fazer a tarefa junto com a criança, oferecendo a ela a visualização de cada passo. Figura 1: Modelagem de Artistas consagrados Figura 2: modelagem simples

    Figura 1: Modelagem de Artistas consagrados. Figura 2: modelagem simples.
    Figura 1: Modelagem de Artistas consagrados. Figura 2: modelagem simples.

    ARTE TERAPIA EM QUALQUER LUGAR

    Podemos usar a arte dentro e fora de casa com os indivíduos com TEA. Fazer arte é experimentar, buscar novas experiências e ela pode estar presente na rotina diária de um autista. Portanto, comece agora a utilizar a arte com o seu filho e/ou com o seu paciente com TEA.

    A arte pode facilitar e deixar o dia-a-dia do autista e de sua família mais leve, alegre, divertido e o seu aprendizado muito mais natural. Para concluir, a arte pode ser um meio que ajuda o indivíduo a atingir uma independência emocional que é um pré-requisito para conquistar a sua independência econômica.

    CONCLUSÃO:

    Depois de 6 anos de experiência, trabalhando com alunos atípicos, construímos uma comunidade, na qual eles se sentem pertencentes e importantes, assim como as suas mães. Eles e suas mães fazem partem de um grupo de “zap” onde trocam idéias e se comunicam. Viajamos juntos, participamos de congressos juntos.

    Muitos deles fazem palestras, são convidados para programas de Televisão como o “Caldeirão do Mion” e o “Fantástico”. Por isso, aprendi que o pertencimento e a inclusão dependem muito daquilo que as pessoas gostam em comum, no nosso caso é a arte e eu tenho uma máxima: “Os atípicos precisam muito mais dos atípicos do que das pessoas típicas.”

    RESUMO DO CAPÍTULO:

    Este capítulo tem como objetivo reforçar e informar aos pais e profissionais que compõe o eco sistema do tratamento do TEA o quanto a arteterapia e/ou as artes-plásticas em si devem ser consideradas cada vez mais como um complemento do tratamento dos indivíduos com autismo, em especial na fase da adolescência. Explico neste capítulo, através da minha formação como artista plástica e RBT (AT) e da minha experiência no curso online ARTS & HEARTS – @art_shearts – para pessoas neuro-diversas, algumas técnicas que utilizo e casos de sucesso obtidos através da arte.

    Este conteúdo possui finalidade informativa e educacional e não substitui avaliação ou acompanhamento individualizado realizado por profissionais especializados.

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