Neurologista da Infância e Adolescência · Especialista em TEA

    Camuflagem social em meninas autistas

    Dra. Deborah Kerches — Neurologista da Infância e Adolescência (UNESP)

    A camuflagem social (masking) é um dos fenômenos mais relevantes na compreensão do autismo em meninas e mulheres. Refere-se ao uso de estratégias desenvolvidas pelo próprio indivíduo para ocultar ou compensar características do espectro autista, com o objetivo de melhor atender às expectativas sociais (Lai et al., 2017; Hull et al., 2019).

    Essas estratégias podem assumir diferentes formas e ocorrer de maneira consciente ou inconsciente. A literatura descreve três processos principais: compensação, mascaramento e assimilação. A compensação envolve o desenvolvimento de estratégias para contornar dificuldades na comunicação social, muitas vezes por meio da observação e cópia de comportamentos (como aprender regras explícitas de interação, ensaiar conversas ou reproduzir expressões e gestos observados em outras pessoas). O mascaramento refere-se ao monitoramento constante do próprio comportamento para ocultar características autistas, o que pode incluir suprimir estereotipias, controlar expressões faciais ou forçar contato visual. Já a assimilação envolve a adaptação de comportamentos, interesses ou formas de interação com o objetivo de se misturar ao grupo social e reduzir a percepção de diferença (Hull et al., 2019).

    Embora processos de adaptação social possam ocorrer em qualquer indivíduo, estudos indicam que a camuflagem é mais frequentemente observada em pessoas autistas sem deficiência intelectual (nível 1 de suporte), particularmente em mulheres – que relatam níveis mais elevados de camuflagem e tendem a desenvolver estratégias mais refinadas de adaptação social (Hull et al., 2020).
    Essas estratégias podem surgir precocemente no desenvolvimento. Muitas meninas autistas relatam que passaram a observar e reproduzir comportamentos sociais de colegas ainda na infância, especialmente após experiências de exclusão social ou dificuldade em compreender regras implícitas de interação.
    Embora possa produzir uma aparência de competência social em determinados contextos, a camuflagem tende a levar a experiências extremamente negativas, como ansiedade, estresse, depressão, baixa autoestima, exaustão emocional, pensamentos suicidas (Cassidy et al., 2018) e burnout (Raymaker et al., 2020). Muitas mulheres autistas relatam que, após se esforçarem para camuflar características autistas, apresentam crises emocionais diante da percepção de situações sociais como “perturbadoras” (Bargiela et al., 2016). Essa exaustão repetida ao longo do tempo pode intensificar o sofrimento psíquico.
    Além disso, ao produzir uma aparência de maior competência social, a camuflagem tende a dificultar o reconhecimento das características do TEA por familiares e profissionais, contribuindo para diagnósticos mais tardios.
    Sendo a camuflagem social uma parte relativamente comum das experiências cotidianas de meninas e mulheres autistas, essa passa a ser uma consideração importante em contextos clínicos e de pesquisa.
    A avaliação clínica em meninas e mulheres deve considerar indicadores de sobrecarga social e compreender que uma competência aparente em interações breves pode refletir camuflagem – e não necessariamente ausência de prejuízos sociais.
    Ter conhecimento sobre esse conceito é ainda essencial para que se lance um olhar mais atento e integral às autistas. O diagnóstico assertivo de TEA e o suporte adequado levam muitas delas a reduzirem ou flexibilizarem estratégias intensas de camuflagem, diminuindo sentimentos de não pertencimento, estresse e fadiga social, e contribuindo, assim, significativamente para uma melhor qualidade de vida.

    Sobre a autora

    Dra. Deborah Kerches. Neurologista da Infância e Adolescência (UNESP), especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA). Mestra em Análise do Comportamento (PUC-SP), pós-graduada em psiquiatria. Pesquisadora na área de TEA feminino e Treino de Comunicação Funcional (FCT). Palestrante sobre autismo no Brasil e exterior. Autora do best-seller "Compreender e acolher: Transtorno do Espectro Autista na infância e adolescência", coordenadora editorial dos best-sellers "Autismo ao longo da vida" vol. 1 e vol. 2. Madrinha do projeto social Capacitar para Cuidar em Angola. Membro da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil, Academia Brasileira de Neurologia e da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil (Abenepi).

    Referências

    Bargiela, S., Steward, R., & Mandy, W. (2016). The experiences of late-diagnosed women with autism spectrum conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, 46(10), 3281–3294.
    Cassidy, S., Bradley, L., Shaw, R., & Baron-Cohen, S. (2018). Risk markers for suicidality in autistic adults. Molecular Autism, 9, 42.
    Hull, L., Mandy, W., Lai, M.-C., et al. (2019). Development and validation of the Camouflaging Autistic Traits Questionnaire (CAT-Q). Journal of Autism and Developmental Disorders, 49(3), 819–833.
    Hull, L., Lai, M.-C., Baron-Cohen, S., et al. (2020). Gender differences in self-reported camouflaging in autistic and non-autistic adults. Autism, 24(2), 352–363.
    Lai, M.-C., Lombardo, M. V., Auyeung, B., et al. (2015). Sex/gender differences and autism. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 54(1), 11–24.
    Raymaker, D. M., et al. (2020). Defining autistic burnout. Autism in Adulthood, 2(2), 132–143.

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    Este blog tem fins informativos e educacionais. As informações aqui presentes não substituem avaliação, diagnóstico ou tratamento médico profissional. Sempre consulte um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões sobre saúde ou tratamento.

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