Na delicadeza entre sons e silencio…O papel do Fonoaudiologo no florescerda Linguagem Pragmatica em criancas com TEA

    Na delicadeza entre sons e silêncio: o papel do fonoaudiólogo no florescer da linguagem pragmática em crianças com TEA
    Fonoaudiologia e comunicação

    Na delicadeza entre sons e silêncio: o papel do fonoaudiólogo no florescer da linguagem pragmática em crianças com TEA

    Este artigo descreve o papel do fonoaudiólogo na mediação e no desenvolvimento da linguagem pragmática em crianças com Transtorno do Espectro Autista, por meio de intervenções baseadas em evidências que favorecem a intenção comunicativa, o compartilhar com o outro e o uso funcional da linguagem.

    Georgiana Sylvia Dobbin
    Artigo escrito por especialista
    Georgiana Sylvia Dobbin
    Fonoaudióloga clínica • Especialista em Processamento Auditivo
    Fonoaudióloga formada há mais de 30 anos no Rio de Janeiro, mestre em Clínica Médica pela UFRJ e CEO da Axis Therapy Center, em Orlando, Flórida.

    Afinal, o que é linguagem pragmática?

    David Crystal define a linguagem pragmática como o estudo da língua a partir do ponto de vista de seus usuários, considerando as escolhas realizadas, as limitações encontradas durante o uso da língua, a interação social e os efeitos que a comunicação provoca nos demais participantes.

    Em termos mais simples para as famílias, a linguagem pragmática está relacionada à maneira como a criança utiliza a comunicação na prática.

    Ela envolve habilidades como:

    • Pedir algo de que necessita.
    • Iniciar uma conversa.
    • Manter e encerrar um diálogo.
    • Interpretar gestos e expressões.
    • Compreender intenções comunicativas.
    • Entender regras sociais.
    • Adaptar sua comunicação ao contexto e ao interlocutor.
    A linguagem pragmática é a parte da comunicação que transforma palavras, olhares, gestos e expressões em interação social verdadeira.

    Para a American Speech-Language-Hearing Association (ASHA), a linguagem pragmática corresponde ao uso funcional da comunicação em contextos sociais.

    Ela inclui a capacidade de iniciar, manter e encerrar interações, adaptar a linguagem ao interlocutor e compreender as intenções comunicativas das outras pessoas.

    Por que os pais precisam saber disso?

    Porque a linguagem pragmática está diretamente relacionada à maneira como a criança se comunica no cotidiano.

    Esse desenvolvimento começa muito cedo, ainda nos primeiros meses de vida, e acontece em casa, na creche, na escola e em todos os ambientes em que existem oportunidades de interação.

    Quando os cuidadores compreendem que a comunicação vai muito além da produção de palavras, tornam-se capazes de reconhecer pequenas conquistas, identificar dificuldades reais e participar ativamente das estratégias sugeridas pelo fonoaudiólogo.

    Comunicar-se não é apenas falar. É conseguir compartilhar interesses, necessidades, sentimentos e experiências com outra pessoa.
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    Qual é a relação entre o TEA e a linguagem pragmática?

    Diversos estudos demonstram que crianças com Transtorno do Espectro Autista podem apresentar desafios relacionados à linguagem pragmática.

    Paul e Norbury explicam que essas habilidades podem se desenvolver de maneira bastante diferente no autismo.

    Bishop destaca que uma criança pode apresentar boa produção de fala e um vocabulário amplo, mas ainda assim ter dificuldades para usar a linguagem de maneira social e funcional.

    Para as famílias, compreender essa relação é fundamental porque o apoio à comunicação cotidiana pode ajudar a criança a participar mais das interações, fortalecer vínculos e construir relações mais significativas.

    “Meu filho precisa falar para conseguir interagir?”
    Mito

    A ideia de que uma criança precisa necessariamente desenvolver a fala antes de interagir é um mito que coloca um peso enorme e desnecessário sobre as famílias.

    Falar é apenas uma das formas de comunicação.

    Muitas crianças com TEA conseguem se conectar, aprender, brincar e interagir antes de desenvolver a fala ou enquanto ainda estão aprendendo a utilizá-la.

    O que realmente importa é que a criança tenha acesso a meios funcionais de comunicação, que podem incluir:

    • Gestos.
    • Olhares.
    • Apontar.
    • Expressões faciais.
    • Figuras e pranchas de comunicação.
    • Dispositivos de Comunicação Alternativa e Aumentativa.
    • Palavras e vocalizações.
    A fala pode surgir — e muitas vezes surge —, mas a interação e a comunicação começam muito antes dela.

    Quando a criança fala, mas ainda não se comunica de maneira funcional

    Algumas crianças pequenas demonstram conhecer letras, números, cores e até palavras em outros idiomas.

    Essas habilidades podem estar relacionadas à memorização, uma capacidade que pode ser bastante desenvolvida em algumas crianças com TEA.

    Entretanto, quando a criança fala muitas palavras, mas não utiliza a fala para responder ao próprio nome, chamar a atenção de um adulto, pedir ajuda ou iniciar uma interação, pode haver necessidade de apoio no desenvolvimento da intenção comunicativa, da atenção conjunta e do uso social da linguagem.

    Nessas situações, o fonoaudiólogo atua para transformar conhecimentos memorizados em comunicação funcional, ampliando as possibilidades de interação da criança com outras pessoas.

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    Como o fonoaudiólogo participa desse desenvolvimento?

    Desde muito cedo, por volta dos dois ou três meses de vida, o fonoaudiólogo pode observar sinais importantes da comunicação que ainda não envolvem palavras, mas que já demonstram como o bebê interage com o mundo.

    Nessa fase, a avaliação pode considerar aspectos como:

    • Troca de olhares.
    • Sorriso social.
    • Vocalizações.
    • Resposta ao nome.
    • Interesse pelo outro.
    • Interesse por objetos.
    • Curiosidade pelo ambiente.

    A intervenção acontece de maneira lúdica e inclui orientação aos pais, estimulando habilidades que constituem as bases da comunicação.

    Entre essas habilidades estão os turnos comunicativos, a imitação, a atenção compartilhada e as respostas sensíveis às iniciativas da criança.

    O acompanhamento precoce — ou realizado no momento adequado — fortalece as bases necessárias para que a linguagem pragmática possa florescer nas situações reais do cotidiano.

    O fonoaudiólogo atua junto aos pais?

    Sim. O fonoaudiólogo trabalha lado a lado com os pais desde os primeiros meses de vida, ajudando-os a reconhecer e estimular cada etapa do desenvolvimento comunicativo do bebê.

    Segundo a fonoaudióloga Laura Mize, o profissional orienta os cuidadores a construir interações ricas e intencionais.

    Isso inclui responder aos olhares, sorrisos e vocalizações do bebê, transformando esses momentos em pequenas conversas.

    Conforme a criança cresce, o fonoaudiólogo desenvolve estratégias para fortalecer:

    • A atenção conjunta.
    • O uso de gestos.
    • A imitação.
    • Os turnos comunicativos.
    • A intenção de compartilhar.
    • O uso funcional das primeiras palavras.

    O cotidiano como espaço de comunicação

    O objetivo é transformar o ambiente familiar em um espaço repleto de oportunidades comunicativas.

    Essas oportunidades podem acontecer durante atividades simples e naturais, como:

    • Trocar fraldas.
    • Tomar banho.
    • Realizar as refeições.
    • Guardar brinquedos.
    • Brincar.
    • Passear.
    • Participar das rotinas da família.

    Pais, pediatras e fonoaudiólogos devem caminhar juntos, garantindo que a criança avance em seu próprio ritmo, mas com apoio consistente, sensível e baseado em suas necessidades.

    Mais do que trabalhar a fala, cabe ao fonoaudiólogo ajudar a criança a descobrir formas funcionais de interação e compreender o ambiente que a envolve.

    Uma intervenção contínua, natural e significativa

    Os pais devem ser reconhecidos como parceiros ativos durante todo o processo terapêutico.

    Quando as estratégias são incorporadas às atividades reais da família, a intervenção deixa de estar limitada ao consultório e passa a ocorrer de maneira contínua e natural.

    Assim, cada olhar, gesto, vocalização, palavra ou tentativa de aproximação pode se transformar em uma oportunidade verdadeira de conexão e desenvolvimento.

    A linguagem floresce quando a criança encontra pessoas dispostas a observar, esperar, responder e compartilhar o mundo com ela.

    Sobre a autora

    Georgiana Sylvia Dobbin é fonoaudióloga clínica, formada há mais de 30 anos no Rio de Janeiro, com atuação em clínica particular junto a crianças e adolescentes com dificuldades de comunicação e aprendizagem.

    É especialista em avaliação e terapia do Processamento Auditivo e mestre em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com pesquisa na área de Processamento Auditivo e Síndrome de Down, concluída em 2005.

    Atuou como professora dos cursos de graduação em Fonoaudiologia das universidades Veiga de Almeida e IBMR, ambas no Rio de Janeiro.

    Também foi professora de cursos de pós-graduação em Audiologia Clínica na Universidade Estácio de Sá, na UFRJ e na Faculdade Redentor, em Itaperuna, Rio de Janeiro.

    Atualmente, atua como Speech-Language Pathologist Assistant, licenciada no estado da Flórida, nos Estados Unidos, e é CEO da Axis Therapy Center, em Orlando.

    Referências bibliográficas

    1. Crystal, D. (1997). A Dictionary of Linguistics and Phonetics. 4th ed. Oxford: Blackwell.
    2. American Speech-Language-Hearing Association – ASHA. (2023). Social Communication Disorders. ASHA Practice Portal.
    3. Adams, C. (2002). Practitioner review: The assessment of language pragmatics. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 43(8), 973–987.
    4. Bishop, D. V. M. (1998). Development of the Children’s Communication Checklist (CCC): A method for assessing qualitative aspects of communicative impairment in children. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 39(6), 879–891.
    5. Paul, R., & Norbury, C. F. (2012). Language Disorders from Infancy through Adolescence: Listening, Speaking, Reading, Writing, and Communicating. 4th ed. St. Louis: Elsevier.
    6. Mize, L. (2013). Autism: Early Intervention for Toddlers & Preschoolers. Teach Me To Talk, Inc.
    Este conteúdo possui finalidade informativa e educacional e não substitui avaliação ou acompanhamento individualizado com um profissional especializado.

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