O artesanato como ferramenta de intervenção no autismo
Sou apenas uma mãe. Não tenho formação acadêmica na área.
Meu filho Arthur, hoje com 19 anos, recebeu o diagnóstico do autismo por volta dos 5 anos. Naquela época, o conhecimento sobre o autismo era muito limitado e não tínhamos o acesso à internet como hoje.
As terapias quase não existiam, as informações eram escassas e nós não sabíamos nem o que era o autismo, nunca nem tínhamos ouvido falar. Em meio às consultas e avaliações, tudo era muito caro e fora da nossa realidade, e isso limitava o diagnóstico.
Os primeiros desafios
Meu filho possui autismo nível 3 de suporte, mas naquela época não existia essa classificação.
Houve dias de crises intensas, muitos choros, noites sem dormir e incertezas que pareciam não ter fim. Mas, em meio a tudo isso, houve muitas conquistas, sorrisos que em muitos momentos viravam o meu combustível.
As sementes deixadas pela minha avó
Muito antes de me tornar mãe, uma pessoa especial já plantava em mim sementes que floresceriam anos depois: a minha avó.
Cresci vendo ela costurar lindos vestidos, pintar, bordar e fazer lindas lembrancinhas para festas e casamentos. E, sem perceber, fui cultivando esse interesse dentro de mim.
Foi com ela que descobri que o artesanato vai além da técnica. Criar é também uma forma de demonstrar amor, de dedicar seu tempo para algo ou alguém.
Sem saber, ela deixou em mim uma ferramenta que se tornaria um elo entre eu e o meu filho. E aqueles ensinamentos ganhariam um significado que jamais poderia imaginar.
O artesanato como ponte
Foi quando compreendi que poderia utilizar aquilo que havia aprendido com minha avó para me aproximar ainda mais dele.
O artesanato deixou de ser apenas uma atividade e passou a ser uma ponte de comunicação e aprendizado.
Comecei a apresentar diferentes experiências para ele: texturas, colagens, pinturas, desenhos, estêncil, recortes, costura e diversas outras atividades criativas que estimulavam habilidades motoras, cognitivas e sensoriais.
Tudo acontecia no tempo dele, sem cobranças, respeitando seus limites.
Aos poucos, ele foi tendo mais autonomia e adquirindo mais segurança. Fui vendo surgir ali habilidades que não imaginava que ele realizaria.
Meu próximo passo agora é também ensiná-lo a utilizar uma máquina de costura, ampliando ainda mais a sua autonomia e independência.
As flores que só ele conseguia ver
Foi através da sua professora de Artes, Grazi Gadia, que ele foi adquirindo mais confiança.
Ela deu orientações preciosas para o desenvolvimento dele e foi com o seu olhar profissional que ele conseguiu expandir a sua pintura.
E assim comecei a compreender melhor as suas artes. Durante muito tempo, eu observava essas pinturas sem perceber tudo o que ele carregava dentro dele.
Aí entendi que aquelas cores, formas e traços eram muito mais do que simples pinturas. Eram as suas percepções. Na realidade, eram as flores que só ele conseguia ver.
A família também transforma
O desenvolvimento não acontece apenas dentro das clínicas.
As terapias são fundamentais e merecem todo reconhecimento e respeito. Elas desempenham um papel indispensável na evolução das crianças. Mas a família também possui uma força transformadora.
Por isso, gostaria de deixar uma mensagem para outras famílias.
Não subestime aquilo que você sabe fazer. Seus talentos, conhecimentos profissionais e experiências podem se transformar em ferramentas valiosas para o desenvolvimento do seu filho.
Se você gosta de cozinhar, cozinhe com ele. Se gosta de plantar, cultive um jardim ao lado dele. Se gosta de música, cante. Se gosta de arte, desenhe. Se gosta de contar histórias, conte histórias junto com ele.
Você pode encontrar uma brecha, um acesso de ligação único, e se ligar a ele como nunca antes.
Fé, aprendizado e esperança
A fé em Deus sempre esteve presente em minha vida, e tenho certeza de que foi por isso que não caí ao longo do caminho.
Muitas vezes, quando o caminho parecia longo demais, eu costumava fazer uma oração e recebia um conforto que vinha de Deus.
A fé não apagava as dificuldades, mas me ajudava a atravessá-las com mais serenidade.
Com o tempo, nós, pais e mães, nos tornamos especialistas nos hiperfocos dos nossos filhos.
Quando usamos esses interesses como ponte para o aprendizado, abrimos portas. E, se não tentarmos entrar, essa porta pode ficar fechada por muito tempo.
Uma mensagem para outras famílias
Ainda vamos enfrentar muitas incertezas, mas continuo acreditando e aprendendo todos os dias.
Estude, busque conhecimento específico que se encaixe naquilo que seu filho vive atualmente. Isso vai ajudar você a interpretar melhor as vivências dele com mais clareza e conseguir obter informações para desenvolver ainda mais o potencial dele.
Você talvez ainda não saiba, mas tem mais talento do que imagina. Acredite em você!
Por isso, nunca deixe de buscar. Às vezes, aquilo que parece simples demais carrega conquistas e grandes realizações.

