Este artigo tem como objetivo ajudar pais, educadores e profissionais que trabalham com pessoas autistas a compreender melhor a ecolalia e a hiperlexia, indo além da ideia de que esses comportamentos são simplesmente “repetições” ou habilidades isoladas.
Professora universitária dos cursos de graduação em Fonoaudiologia das faculdades Veiga de Almeida e IBMR, ambas no Rio de Janeiro. Professora dos cursos de Pós-graduação em Audiologia Clínica nas Universidades Estácio de Sá e UFRJ, e da Faculdade Redentor em Ibituruna, RJ.
Atualmente, exerce a função de Speech Language Pathologist Assistant, licenciada na Flórida, USA. CEO da Axis Therapy Center, Orlando.
Instagram: @gigidobbin, @fonosnaamerica, @axistherapycenter
Website: www.therapycenteraxis.com
Imagine uma criança que, quando você pergunta “Você quer água?”, responde imediatamente: “Você quer água?”. Ou uma criança que lê uma placa inteira em voz alta, reconhece palavras muito difíceis e até soletra nomes de cidades, mas, quando perguntamos “O que você acabou de ler?”, parece não saber explicar.
Para quem observa de fora, esses comportamentos podem parecer contraditórios. Mas eles podem revelar algo muito importante sobre como aquela criança está aprendendo, armazenando e usando a linguagem.
A ecolalia e a hiperlexia são fenômenos relativamente frequentes no Transtorno do Espectro Autista (TEA), mas não significam simplesmente “repetição sem sentido” ou “ler sem entender”. Pelo contrário: quando olhamos para essas manifestações com mais cuidado, podemos encontrar caminhos importantes para desenvolver comunicação funcional, compreensão e autonomia.
Mas afinal o que é ecolalia?
Ecolalia é a repetição de palavras, frases ou enunciados que a pessoa ouviu de outra pessoa, de um vídeo, de uma música ou de outro contexto.
Ela pode acontecer de diferentes maneiras.
1. Ecolalia imediata
A repetição acontece logo depois que a fala é ouvida.
Adulto: “Você quer suco?”
Criança: “Você quer suco?”
À primeira vista, parece que a criança não respondeu à pergunta. Mas isso não significa necessariamente que ela não tenha compreendido.
A ecolalia pode ter diferentes funções comunicativas, como confirmar, pedir, participar de uma interação, ganhar tempo para processar a informação ou manter uma troca social.
2. Ecolalia tardia ou delayed echolalia
A repetição acontece depois de um intervalo que pode ser de minutos, horas, ou ate dias.
Por exemplo:
Uma criança assistiu a um desenho em que um personagem dizia:
“Vamos pegar o carro!”
Dias depois ela repete esta frase sem nenhuma conexão com o desenho assistido.
Nesse caso, a frase pode não estar sendo utilizada simplesmente porque a criança quer repetir o desenho. Ela pode ter emprestado aquela frase para expressar uma intenção comunicativa.
A literatura descreve justamente a importância de observar a função da ecolalia, em vez de classificá-la automaticamente como comportamento sem significado.
3. Ecolalia mitigada
Pode-se observar situações em que a criança começa com uma frase que ouviu anteriormente, mas modifica parte dela.
Por exemplo:
“Vamos ao parque?”
“Eu quero parque.”
Aqui começamos a perceber algo muito importante: a criança está transformando o que ouviu para criar uma mensagem própria.
Esse processo de modificar, combinar e flexibilizar partes de frases é especialmente relevante para o desenvolvimento de linguagem espontânea.
Ecolalia é ausência de comunicação? Necessariamente NAO!
Durante muitos anos, a ecolalia foi vista principalmente como um comportamento que deveria ser eliminado. Atualmente, sabemos que essa visão é limitada.
A American Speech-Language-Hearing Association (ASHA) reconhece que a ecolalia pode exercer funções comunicativas, incluindo pedir, protestar, afirmar, nomear e participar de turnos conversacionais.
E nao: “Como faço para essa criança parar de repetir?”
Isso é algo transformador!
E onde entra o Gestalt Language Processing?
O conceito de Gestalt Language Processing (GLP) ou processamento de linguagem em “gestalts” ganhou bastante espaço na discussão sobre desenvolvimento de linguagem no autismo.
A ideia central é que algumas crianças podem adquirir inicialmente unidades maiores de linguagem — frases, músicas, falas de personagens ou “scripts” — antes de analisar essas unidades em palavras individuais.
Por exemplo, uma criança pode aprender:
“Está na hora de ir embora!”
como uma unidade inteira, em vez de inicialmente aprender separadamente:
“está” + “na” + “hora” + “de” + “ir” + “embora”.
Com o desenvolvimento, partes dessa expressão podem começar a ser modificadas e combinadas com outras palavras.
Mas existe uma ressalva importante: hoje, o conceito de GLP/Natural Language Acquisition (NLA) é objeto de debate científico.
Uma revisão crítica publicada em 2024 apontou problemas conceituais e limitações das evidências para afirmar que a ecolalia tardia, por si só, identifica uma criança como “gestalt language processor”. Uma publicação de 2025 também destacou que a produção de linguagem não é suficiente para determinar como uma criança processa a linguagem internamente.
Portanto, é mais seguro utilizar o conceito de gestalt como uma hipótese clínica útil para observar padrões individuais, e não como uma explicação universal para toda criança autista que apresenta ecolalia.
E podemos dizer que ecolalia e hiperlexia são a mesma coisa? Não.
Ecolalia está relacionada principalmente à linguagem oral: a pessoa repete o que ouviu.
Hiperlexia está relacionada principalmente à leitura: a pessoa apresenta habilidades de reconhecimento e decodificação de palavras muito avançadas em comparação com sua compreensão daquilo que está lendo.
Uma criança com perfil hiperlexico pode, por exemplo:
- reconhecer palavras muito precocemente;
- ler palavras que nunca ensinamos diretamente;
- demonstrar grande interesse por letras e palavras;
- memorizar sequências escritas;
- ler placas, rótulos e livros;
- mas ter dificuldade para explicar o significado do que acabou de ler.
Uma revisão sistemática de Ostrolenk e colaboradores descreveu a hiperlexia justamente como um perfil em que habilidades avançadas de leitura podem coexistir com uma compreensão mais atrasada, especialmente em relação ao nível de decodificação.
A criança lê:
“O cachorro correu atrás do gato.”
Mas, quando perguntamos:
“Quem correu atrás de quem?”
ela não consegue responder.
Nesse caso, a leitura está acontecendo, mas a construção do significado ainda precisa ser trabalhada.
Decodificação é transformar símbolos escritos em palavras.
Compreensão é construir significado a partir dessas palavras.
Uma criança pode ter excelente habilidade de decodificação e apresentar dificuldades na compreensão.
Memória episódica e Memória semântica: onde se entrelacam com o TEA?
Aqui chegamos a uma diferença muito importante.
A memória episódica está relacionada à lembrança de acontecimentos específicos — aquilo que aconteceu, em determinado contexto, em determinado momento.
Por exemplo:
“Ontem fomos à praia. Eu estava com meu pai. Tinha areia, água e um sorvete.”
É uma lembrança associada a uma experiência.
Já a memória semântica envolve conhecimentos e conceitos que aprendemos sobre o mundo.
Por exemplo:
“Praia é um lugar com areia e água.”
“Sorvete é um alimento gelado.”
Por que isso é importante no TEA?
Porque uma criança pode memorizar o episódio inteiro associado a uma frase.
Por exemplo, ouvir:
pode ficar associado à experiência de:
- pegar o sapato;
- entrar no carro;
- sentir determinada emoção;
- ir para determinado lugar.
A frase passa a funcionar como uma espécie de “chave” para aquela experiência.
O conceito de “situational gestalt” descrito na literatura de Prizant relaciona justamente a linguagem a conjuntos de informações contextuais e experienciais.
Por isso nosso objetivo não deve ser ficar apenas na lembrança do episódio.
Precisamos ajudar a criança a construir conhecimento semântico.
A palavra passa a fazer parte de uma rede de significados.
Desta forma, uma intervenção de qualidade não deve apenas estimular a criança a produzir mais palavras. O foco deverá ser em ajudá-la a compreender relações entre palavras, conceitos, ações, pessoas e acontecimentos.
No trabalho terapeutico é objetivo extinguir a ecolalia e a hiperlexia?
Trata-se de compreender, acolher e transformar essas características em possibilidades de comunicação e aprendizagem.
Uma intervenção verdadeiramente individualizada não parte da pergunta sobre como eliminar aquilo que é diferente. Parte da pergunta sobre como potencializar aquilo que a pessoa já possui.
Nesse sentido, o sucesso terapêutico não deve ser medido apenas pela diminuição de comportamentos considerados atípicos, mas pelo aumento das possibilidades de comunicação, participação, autonomia e qualidade de vida da pessoa autista.
Conclusão
A compreensão da ecolalia e da hiperlexia no Transtorno do Espectro Autista exige do profissional e das pessoam que cercam esta crianca um olhar que ultrapasse a perspectiva de déficit e de correção de comportamentos considerados atípicos.
A ecolalia pode assumir funções comunicativas, cognitivas e de autorregulação, enquanto a hiperlexia e o interesse intenso por letras, números e materiais escritos podem constituir importantes vias de acesso à aprendizagem e à comunicação.
Dessa forma, o objetivo terapêutico não deve ser extinguir a ecolalia ou a hiperlexia, mas compreender sua função, reconhecer seu significado para cada indivíduo e ampliar, a partir dessas características, suas possibilidades de comunicação, compreensão, participação e autonomia.
Uma prática verdadeiramente individualizada parte das habilidades que a pessoa já possui e constrói, a partir delas, novos caminhos para o desenvolvimento.
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